Entre 1994 e 1997, o rock rendeu-se ao britpop. Tony Blair assumia o poder no Reino Unido, o termo "cool britannia" passou a ser utilizado na companhia de nomes como Damien Hirst, Tracey Emin e de escritores como Nick Hornby, Will Self, Irvine Welsh, o que se mostrou uma paisagem apropriada para bandas como Oasis, Blur, Pulp, cujas músicas desenhavam esquinas ensolaradas, hedonismo, excessos e uma assumida falta de vergonha na cara. Com faixas rápidas e upbeat como "Alright" e "Caught by the Fuzz", o Supergrass foi encaixado nessa turma. Mas o trio parece ter se sentido meio deslocado, já que no segundo álbum eles aparecem mais cínicos, resignados. Mas sempre tive a impressão de que essa é das bandas com senso pop dos mais apurados (é só ouvir "Mary", "Pumping on Your Stereo", "Grace"... Dá uma olhada na coletânea "Supergrass Is 10"...). Acontece que há pouco apareceu o novo single da banda, "Diamond Hoo Ha Man", que precede o álbum "Diamond Hoo Ha" (deve sair entre fevereiro e março). Aqui, o Supergrass troca as melodias pop por um forte riff de guitarra, que remete a um climão de rock setentista. Veja aqui:
Prins Thomas - "Disco 2000", do Pulp, deve ter sido feita para esse norueguês que nos dá uma novo olhar para a disco music. D-Edge (al. Olga, 170, Barra Funda, SP; tel. 0/xx/11/3666-9022; sexta, a partir das 24h; de R$ 45 a R$ 50)
Roots Rock Revolution + The Twelves - Maximalismo, electro-rock, disco-punk... Chame do que quiser, mas eles vão te colocar para dançar. Clash (r. Barra Funda, 969, Barra Funda, SP; tel. 0/xx/11/3661-1500; sábado, a partir das 24h; de R$ 20 a R$ 30; mulher grátis até 1h)
Tiê + Cidadão Instigado - Primeiro, uma das melhores jovens cantoras do país; em seguida, uma das bandas mais festejadas do circuito indie. Studio SP (r. Inácio Pereira da Rocha, 170, Vila Madalena, SP; tel. 0/xx/11/3817-5425; sábado, a partir das 22h30; R$ 15)
O Cansei de Ser Sexy e a Zapping promoverão no próximo domingo (dia 20 de janeiro), às 23h, uma festa no Love Story, a histórica "casa de todas as casas", no centro de São Paulo. A festa é apenas para convidados (dá para receber convites por meio de cadastro na loja da Zapping: www.zapping.com.br). A discotecagem fica a cargo do CSS, que fez as estampas de camisetas da marca, além de moletons, bolsas, bonés e outras peças. O artista plástico Mauricio Ianês, diretor de criação da Zapping, diz que convidará outras bandas para desenhar modelos para a marca. Um adendo: o festejado fotógrafo americano CobraSnake (nome: Mark Hunter) vem a São Paulo clicar essa noite.
Fundada em 1931, a britânica EMI resume o enrosco em que estão metidas há algum tempo as grandes gravadoras. Nas suas primeiras décadas, a EMI notabilizou-se por cuidar de vários aspectos da produção musical, da fabricação de equipamentos à abertura do lendário estúdio Abbey Road. (George Martin trabalhava na EMI quando encontrou os Beatles.) A companhia cresceu, adquirindo outras empresas (como a Capitol Records, a United Artists Records e a Virgin) e ampliando seu rol de artistas de música popular (Beatles, Pink Floyd, Beach Boys etc.). Entre os anos 80 e 90, muitos dos grandes artistas pop britânicos fizeram parte de seu cast (Radiohead, Coldplay, Blur, Spice Girls...), e a gravadora flanava com a ajuda dos bons ventos que movimentavam a música na época. Mas, como sabemos, veio a tempestade em forma de MP3, e a EMI (como todas as outras majors) passou a penar para arrumar um guarda-chuva apropriado. Um dos lances desesperados da EMI que reflete na sua atual situação aconteceu em 2002, quando acertou contrato de cerca de R$ 360 milhões com Robbie Williams. Pelo contrato, a EMI garantia seis álbuns de Williams, incluindo "Greatest Hits". (Só o U2, que abocanhou cerca R$ 500 milhões da antiga Polydor, havia feito negócio mais rentável.) A esperança da EMI era a de que Williams fosse repetir nos EUA as fenomenais vendas que alavancava no Reino Unido. Williams até mudou-se para a Califórnia, mas o disco "Escapology", no final de 2002, chegou apenas ao 43º lugar da Billboard.
Em sua carreira, Robbie Williams vendeu 70 milhões de discos para a EMI, e na semana passada anunciou que entrou "em greve", em protesto contra a aquisição, no final do ano passado, da EMI pelo Terra Firma, fundo de "private equity" (que faz participação, compra e revenda de empresas), num negócio de cerca de R$ 9 bilhões. Williams reclama sobre a forma como a nova EMI vem sendo dirigida. Algumas das novas diretrizes da gravadora são a redução dos adiantamentos que eram dados para gravação/produção dos álbuns, a exigência de que os artistas "trabalhem duro" na promoção dos discos e o corte em alguns gastos considerados excessivos (como R$ 80 mil que a empresa destinou no ano à compra de velas...). O próximo disco de Williams tem (ou tinha) previsão de ser lançado em setembro. "A questão é: 'o Robbie Williams deve lançar o disco que está programado pela EMI'? A resposta é: não", disse ao "Times" o empresário do cantor. "Não sabemos como a EMI vai gerenciar e promover o disco. Eles não têm ninguém na área digital que seja capaz de fazer esse trabalho."
Nesta terça-feira (dia 15/1), o novo presidente da EMI, Guy Hands, anunciou que vai mandar embora até 2 mil empregados (o grupo tem por volta de 5.500 funcionários no mundo). No meio disso, outros artistas da gravadora, como Coldplay, The Verve e Snow Patrol ameaçam tomar atitudes semelhantes à de Robbie Williams. (Para esses artistas, não caiu bem a demissão de Tony Wadsworth, que era o responsável pela área musical da EMI no Reino Unido.) Jazz Summers, empresário do Verve e do Snow Patrol, disse que a nova EMI "não tem a menor idéia de como esse negócio funciona". É provável que ele esteja certo, mas será que os grandes artistas têm idéia de como funciona o mundo atual da música?
No último sábado, a banda cuiabana Vanguart iniciou (bem) a série de shows de rock que o clube Clash fará em 2008. Já estão confirmados Garotos Podres (24 de janeiro), Panico (Chile; 3 de fevereiro), L7/Donita Sparks (23 de fevereiro), Stereo Total (março) e Mudhoney (outubro). Atente para a data do Panico.
Criada em 1994 em Santiago, a banda faz um rock longe do comum. Eles são radicados na França e ligados ao selo Tigersushi (de nomes como D-I-R-T-Y e Poni Hoax), cujo proprietário é o ótimo DJ e produtor Joakim. Com um rock que engloba guitarras latinas, peso punk e groove disco, a banda teve alguns semi-hits no início dos anos 2000, como "Transpira Lo", "Anfetaminado" e "Iguana", época em que fora colocada no mesmo saco de Rapture e do disco-punk. O Panico chegou a ser produzido pelo Cristian Vogel, um dos mais criativos e idiossincráticos nomes da eletrônica (suas músicas vão do tecno dark ao dub eletrônico ao industrial e a instalações). Suas músicas (as do Panico...) tocavam em noites boas de rock-dance, como a extinta Trash, do Erol Alkan.
Na Ilustrada de amanhã (versão impressa, digo) sai uma entrevista que eu fiz com Jamie King, o diretor dos "Steal this Film", os documentários (a parte 2 acabou de ser lançada, no mesmo esquema "corra para o seu torrent preferido") pró-dowloads e anticopyright que fizeram algum barulho (merecidamente, aliás) mostrando os (inúteis) ataques da indústria do entretenimento (gravadoras, estúdios, editoras) contra a galera que baixa arquivo na internet.
Nessa mesma linha de discussão, saiu um artigo interessante no Tech Crunch falando de uma idéia que já ronda por aí há um tempo e cuja viabilidade vem sendo estudada: cobrar um imposto para a música. Funciona assim: o usuário pagaria, na conta mensal do provedor de internet, um adicional (algo como US$ 5, como sugeriram recentemente a Associação dos Compositores do Canadá e Trent Reznor, ou 4 euros na União Européia, como sugeriu Peter Jenner há um ano) e ganha o direito de baixar tudo que é música de graça, gravar em CD, jogar no iPod, o que for.
Como diz Michael Arrington, o autor do artigo, "por enquanto eles estão apenas testando o terreno. O grande empurrão virá quando as gravadoras colocarem seus dólares de lobby nesse esforço, em algum momento nos próximos anos."
Arrington é contra a idéia, e tem um bom argumento: "Forçar as pessoas a comprar música quer queiram, quer não, não vai ser a solução para este problema. Os incentivos criados por esse tipo de sistema são perversos - renda e lucro garantidos irão remover qualquer incentivo para inovar ou atender nichos de mercado. Será a morte da música. Os lucros da indústria da música teriam um tamanho fixo, independentemente da qualidade ou do tipo de música que ela lançar. Os incentivos à inovação evaporarão."
Thiago Ney, 33, trabalhou no Notícias Populares entre 1997 e 2000. Está no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, desde 2001.
Marco Aurélio Canônico, 29, está no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, desde 2005. Foi correspondente da Folha em Londres entre junho de 2006 e abril de 2007
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