Teoria da dependência
Hoje saiu um texto na edição impressa da Ilustrada sobre o circuito de festivais de música do Brasil. Algumas pessoas me mandaram e-mail perguntando se não poderia colocar esse texto aqui, já que elas não têm acesso ao conteúdo da Folha no UOL. O texto segue abaixo.
O modelo de organização dos grandes shows no Brasil (particularmente o do circuito de festivais) é dependente. Dependente de eventos corporativos e dependente de dinheiro público.
Empresas de cerveja, de refrigerante, de celulares, de telefonia celular, portais de internet, enfim, empresas de todo o tipo (uma fabricante de pneus organizará um evento de jazz e world music em São Paulo, em junho...) não apenas emprestam o nome a um festival, como empurram sem parcimônia sua parafernália de marketing no ambiente do evento, criando uma concorrência com as próprias atrações artísticas.
Festivais corporativos existem no mundo inteiro. Mas, no Brasil, a ação das empresas é muito mais agressiva. Lá fora, na Escócia, há o T in the Park; na Inglaterra, o V Festival. O primeiro é bancado pela Tennents, marca de bebidas; o segundo, pela companhia Virgin. O nome das empresas é associado com discrição; os locais não são invadidos por merchandising abusivos. Bem diferente do que acontece por aqui.
Um outro efeito desse modelo de negócio é que o Brasil virou o paraíso dos cachês. Os produtores de shows buscam os mesmos artistas, e aí entram em uma espécie de leilão.
Os preços vão lá para cima e forma-se um ciclo: as bandas sabem que no Brasil paga-se cachês milionários; os únicos que podem pagar esses cachês são os festivais corporativos; assim, essas bandas só vêm ao Brasil para tocar em festivais corporativos. O Kaiser Chiefs estava em disputa. Fechou com o Planeta Terra.
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Aí olhamos para o outro lado, o dos festivais "independentes". Não dá para chamar de "independente" um circuito de festivais que depende de dinheiro público para existir. Como acontece no cinema nacional, em que os filmes são bancados por leis de incentivo e não há a menor preocupação com bilheteria, os festivais "independentes" beneficiam-se de um edital da Petrobras que goteja até R$ 250 mil na mão dos produtores de cada evento.
Uma das "contrapartidas" exigidas pela Petrobras é que esses eventos tenham como finalidade "divulgar a música brasileira" e as cenas locais. Não entendo como pode haver divulgação da música brasileira quando esses eventos escalam bandas gringas de terceiro escalão ou grupos europeus de heavy metal cuja relevância artística é quase nula. E aqui ocorre mais uma anomalia.
Bandas indies péssimas, que não tocariam nem em matinês de pubs londrinos, arranjam lugares confortáveis nesses eventos devido à "brodagem" entre produtores de festivais, músicos, blogueiros etc. Triste.
Escrito por Thiago Ney às 14h35
Radiohead - crítica
Sabe o show do Radiohead cujos vídeos estão aí embaixo? Ben Ratliff, do "New York Times", viu. Olha só o que ele achou (em tradução do Paulo Migliacci):
"O Radiohead fez a primeira apresentação de sua turnê pelos Estados Unidos no Cruzan Amphitheater, em West Palm Beach, na noite de segunda-feira, e não havia ninguém bronzeado no palco. “Passamos os últimos três dias em Miami Beach”, disse Thom Yorke, o vocalista da banda, com uma expressão incrédula. “O que acontece lá? Alguma espécie de reconstrução. Por uma vez senti orgulho de ser branco, pálido e inglês”.
Parecia que ele estava falando sobre cirurgia plástica, algo que ele previsivelmente reprova. Em “House of Cards”, uma canção recente do Radioheads, um verso diz que “a infra-estrutura desabará”. Talvez eles estejam falando sobre casamentos instáveis; sobre estradas e pontes; sobre corpos humanos e os acréscimos que lhes são feitos. Afinal, do que não trata uma canção do Radiohead, ainda que por extensão? As letras de Yorke tendem a começar introspectivas, com uma dor ou sensação de medo específica, e depois se expandem em direção a imagens perturbadoras, vaticínios e previsões de uma nova era glacial, furacões, violência.
A música do Radiohead também parece ampla, muitas vezes, abrangente, não específica, uma correnteza cada vez mais caudalosa de harmonia entre três guitarras e textura rítmica que atinge picos de doçura ou repulsa e decai. Em algum ponto desse espectro, possivelmente, existe algo de que você vai gostar. Os membros do grupo são músicos da condição humana; são universalistas.
Mas o show da segunda-feira foi muito local, de diversas maneiras. Comparativamente contido, o Radiohead executou 24 canções em duas horas, e voltou duas vezes para o bis. As músicas foram bem tocadas -10 novas canções, e a maioria das demais selecionadas do primeiro disco de grandes sucessos da banda, que sai no mês que vem pela Capitol (sem a aprovação do Radiohead, que trocou de gravadora). As canções eram encerradas subitamente, com pausas rápidas e ligeiramente tensas de uma a outra. Yorke cantava de dentro da música, como é seu costume, com uma voz semelhante a um instrumento de cordas que ele misturava ao conjunto cuidadosamente, movendo a cabeça de um lado para outro. Mas ele raramente se deixou submergir de todo.
Era um show preparatório. Os loops e as maquinações digitais de Jonny Greenwood não pareciam especialmente atraentes, e o grupo parece ter encontrado problemas ao tocar “Weird Flashes/Arpeggi”, uma das faixas mais fortes de “In Rainbows”, seu mais recente álbum, usando o ritmo firme de Phil Selway como uma espécie de viga-mestra. A banda fez uma pausa de cerca de 20 segundos, e depois recomeçou, do meio. (“É claro que não ensaiamos esta aqui o bastante”, disse Yorke ao final, com um sotaque brincalhão de sargento.)
Havia colunas de luzes coloridas sobre a banda, o que fazia parecer que uma espécie de chuva listrada estava caindo, ocasionalmente. As telas de vídeo se dividiam em cinco partes e ofereciam vistas frontais e laterais dos membros da banda, que muitas vezes pareciam pequeninos em meio a toda a pirotecnia que os cercava.
A última turnê do Radiohead aconteceu dois anos atrás, o que não é um intervalo longo, para algumas bandas. Mas a essa altura, a demora parece ter sido prolongada demais, para o grupo. O público respondeu com imensa alegria a “In Rainbows”, lançado no ano passado sob um novo sistema que permite ao ouvinte pagar o que quiser pelo disco. Quando o guitarrista Ed O’Brien começou a bater palmas durante “15 Step”, uma das canções de “In Rainbows”, ele olhou para o lado e gesticulou pedindo que a platéia não batesse palmas com ele. Mas os espectadores começaram a acompanhar mesmo assim.
Alguma catarse foi enfim propiciada no bis de meia hora, com a mistura de três guitarras em “Optimistic” e o dueto acústico entre Yorke e Greenwood em “Faust Arp”, com suas imagens entrópicas sobre marchas forçadas e a burocracia da existência:
“Esprema os tubos e garrafas vazias
E agradeça, agradeça
É isso que você sente agora
O que você devia”.
(York disse, do palco, que a música foi composta em cinco minutos, mas a letra demorou um ano e meio.)
Por fim, em “House Cards”, a sombria e desafiadora versão de Yorke para o que poderia ser uma canção de amor, acompanhada pelo slide líquido e sujo da guitarra de Greenwood, tensão e beleza pareciam ter encontrado seu equilíbrio."
Escrito por Thiago Ney às 21h18
"The model"
Agyness Deyn tem 25 anos e há algum tempo está sendo classificada como "a nova Kate Moss". Por ser inglesa, por vir de família classe média, por ter pinta de quem não está nem aí para nada, por ser (claro) linda e porque adora rock. Foi descoberta aos 18 anos, e hoje estampa campanhas Giorgio Armani e Burberry. Ah, e ela namora o Josh Hubbard, dos Paddingtons. Pois Deyn estrela e canta em clipe de "Who", da banda Five O' Clock Heroes. Veja abaixo.
Mais da Agyness Deyn, aqui ao lado de um integrante do Peta.

Escrito por Thiago Ney às 18h04
Imagem do dia

Ambos vestidos de Marc Jacobs, Jack White e a mulher, a top model Karen Elson, em abertura de mostra no Metropolitan, em Nova York.
Fonte: revista Glamour
Escrito por Thiago Ney às 17h40
Inteligência artificial determina preços
Nada como viver numa época de transformação, em que ninguém sabe muito bem onde as coisas vão parar: a Warner Music anunciou hoje que vai botar em prática mais uma tentativa de manter seu negócio (a venda de música) ativo na era da internet - um programa de inteligência artificial que, a partir da análise de vários dados, aumenta ou diminui o preço das canções vendidas on-line. Como explica a "Wired":
"Nos últimos cinco anos, as gravadoras têm jogado pelas regras de Steve Jobs, vendendo suas músicas digitalmente por 99 centavos de dólar em uma larga variedade de lojas virtuais. Jobs prefere a simplicidade da estrutura de preços de 0,99, mas algumas gravadoras prefeririam determinar o preço das canções de acordo com uma escala que levasse em conta popularidade e outros fatores.
O projeto Digonex [que a Warner põe em teste este mês] reúne dados de vendas em tempo real, analisa comportamento de compradores e estabelece novos preços que combinem a demanda dos consumidores com o potencial do mercado."
A "Billboard" completa: "Ao contrário da crença popular, não é um simples caso de aumentar os preços dos mais vendidos e reduzir os preços dos encalhados. Em alguns casos, o programa recomenda diminuir o preço de um álbum que esteja vendendo bem para aumentar ainda mais as vendas e lucrar com o aumento de volume."
Escrito por Marco Aurélio Canônico às 19h58
Chama os amigos
Não importa se vocês chamam de pebolim ou de totó: eis aqui a melhor mesa do jogo, para dois times de 11 jogadores!

E seja aí ou em qualquer campo, não tem erro: Obina é artilheiro!
Escrito por Marco Aurélio Canônico às 17h56
Sandy na pista
Melhor coisa do dia. No blog do Camilo, dá pra ouvir "Scandal", faixa do novo disco do Crossover Live, projeto do DJ Julio Torres. A música tem no vocal ninguém menos do que Sandy. E não é por nada, mas a melhor coisa da música é a voz da Sandy... Ouça aqui.
Escrito por Thiago Ney às 17h31
Radiohead na estrada
Na segunda (dia 5 de maio) começou a nova turnê do Radiohead. O primeiro show foi num anfiteatro em West Palm Beach, na Flórida.
O set-list:
"All I Need"
"Bodysnatchers"
"There There"
"Reckoner"
"The Gloaming"
"Morning Bell"
"Nude"
"How to Disappear Completely"
"15 Step"
"Weird Fishes/Arpeggi"
"Idioteque"
"Bullet Proof..I Wish I Was"
"Where I End and You Begin"
"Airbag"
"Everything In Its Right Place"
"The National Anthem"
"Videotape"
Bis
"Optimistic"
"Just"
"Faust Arp"
"Exit Music (For a Film)"
"Bangers & Mash"
Bis
"House of Cards"
"Street Spirit (Fade Out)"
Abaixo, alguns vídeos do show.
"There There"
"Reckoner"
"Idioteque"
"Optimistic"
E a que fechou o show, "Street Spirit"
Escrito por Thiago Ney às 16h38
The Go! Team no Motomix
O sexteto de rock-rap-electro The Go! Team vai ser anunciado oficialmente como uma das atrações do Motomix, festival que rola no parque Ibirapuera, em São Paulo, em 28 de junho. A banda britânica vem para substituir a dupla canadense Chromeo, que cancelou turnê sul-americana por motivos particulares. O Go! Team é projeto do multiinstrumentista Ian Parton, que tenta com o grupo dar vida à idéia de conceber uma banda que misturasse rock com cartoon com rap com bom humor com efeitos eletrônicos. A vocalista da banda é a figuraça Ninja, filha de pai nigeriano e que é dona de um gás invejável no palco. Em 2007, lançaram o segundo disco, "Proof of Youth".
Além do Go! Team, o Motomix já anunciou o trio inglês de eletrônica Fujiya & Miyagi. Ainda falta uma banda gringa.
Escrito por Thiago Ney às 01h21
Trilha ideal
Listas, listas, quem consegue resistir a elas?
A CNN fez uma esses dias: os 9 melhores casamentos de música e cena de filme. Tem obviedades como "Born to Be Wild" na abertura de "Sem Destino" e "Stuck in the Middle with You" enquanto mr. Blonde tortura o sujeito em "Cães de Aluguel". Mas tem coisas bacanas também, a melhor delas a menção da cena da tentativa de suicídio de "Os Excêntricos Tenenbaums" ao som de "Needle in the Hay", do Elliot Smith. Que Tarantino que nada, Wes Anderson é o cara na hora das trilhas! (ok, sem exageros, o Tarantino é fera também).
Escrito por Marco Aurélio Canônico às 23h05
Pizzarelli de graça
O jazz dificilmente aparece por aqui, mas não custa nada dar o toque. John Pizzarelli faz shows em São Paulo nesta semana, nos dias 7 e 8 de maio, no Bourbon Street. Surgiu agora a info que o cantor e guitarrista faz também um pocket-show na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na quinta-feira (8 de maio), às 13 horas, com entrada gratuita.
Escrito por Thiago Ney às 20h22
Gui Boratto em eleição do Beatport
Já há algum tempo o Beatport tornou-se boa fonte tanto para comprar como para saber o que está rolando na dance music. O site abriu ao público votação para escolher os "melhores do ano". Saiu o resultado, e o brasileiro Gui Boratto aparece em segundo em duas categorias: "artista de eletrônica" (o ganhador foi Trentemoller) e "artista de tecno" (em primeiro, Dubfire). Eleições de melhores de alguma coisa sempre são curiosas e tal, mas com gente que transita entre vários gêneros, como Deadmau5, Dubfire, Modeselektor e mesmo Gui Boratto, é meio estranho fazer votação a partir de categorias tão rígidas como "artista de breakbeat", "artista de tech-house", "artista de electro"...Escrito por Thiago Ney às 19h18
Aula de produção
Aparentemente, Steve Albini é viciado em pôquer. Deve andar meio solitário também, porque entrou num fórum de jogadores e se ofereceu, do nada, para responder a perguntas sobre sua profissão. O resultado é bastante instrutivo para aprender sobre o mercado de música e o trabalho em estúdio - isso, é claro, partindo do pressuposto de que é ele mesmo (e parece ser, de fato). Fora as curiosidades, como a banda com os melhores instrumentistas (Jesus Lizard) e com os piores (Urge Overkill) com quem ele já trabalhou, a opinião dele sobre o "In Utero" e o Nirvana e a lista do que ele considera seus melhores trabalhos, a saber:
The Jesus Lizard, Goat
PJ Harvey Rid of Me
the Breeders Pod and Title TK
Nina Nastasia the Blackened Air
Silkworm Lifestyle or Italian Platinum
Palace/Will Oldham Viva Last Blues or Arise Therefore
Escrito por Marco Aurélio Canônico às 14h53


